segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A Fé no Cristo versus Religião


Ariovaldo Ramos

Salmos 24:1

Ao SENHOR pertence a terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele habitam.

por ser consciente do relacionamento entre Deus e o Universo, a fé no Cristo desaponta as religiões:


nas religiões, o fiel ama ao seu deus;
na fé no Cristo é Deus que ama o fiel. (2Co 5.14)
2 Coríntios 5:14
Pois o amor de Cristo nos constrange, julgando nós isto: um morreu por todos; logo, todos morreram.


nas religiões, a devoção do fiel é uma proposta;
na fé no Cristo a devoção é a sua resposta. (2Co 5.15)
2 Coríntios 5:15
E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou.


nas religiões, o fiel se sacrifica por seu deus;
na fé no Cristo Deus foi quem se sacrificou. (Jo 3.16)
João 3:16
A missão do Filho
Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.


nas religiões, o fiel serve o deus que vem para ser servido;
na fé no Cristo o Deus veio para servir e não para ser servido. (Mt 20.28)
Mateus 20:28
tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.


nas religiões, o fiel trabalha para o seu deus;
na fé no Cristo o Deus trabalha e o fiel descansa. (Is 64.4; Hb 4.3a)
Isaías 64:4
Porque desde a antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu Deus além de ti, que trabalha para aquele que nele espera.
Hebreus 4:3
Nós, porém, que cremos, entramos no descanso,


nas religiões, a escada é íngreme, com muitos degraus, e se sobe só;
na fé no Cristo se vive comunidade e a escada é rolante, não é o fiel que sobe a escada, é a escada que sobe o fiel.(Fp 3.13)
Filipenses 2:13
porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade.


nas religiões, o fiel luta por merecer salvação;
na fé no Cristo o fiel recebeu salvação, que sabe que não merece. (Ef 2.8,9)
Efésios 2:8-9
Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie.


nas religiões, o fiel se fortalece para poder servir ao seu deus;
na fé no Cristo o fiel admite a sua fraqueza para que a força de Deus se manifeste nele. (2Co 12.9)
2 Coríntios 12:9
Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo.


nas religiões, o fiel paga para que o deus faça o que o fiel precisa;
na fé no Cristo o fiel gerencia o que é de Deus e, grato, oferta, em culto a Deus, para o bem de todos, o que propuser no seu coração. (Sl 24.1; 2Co 9.7-9)
Salmos 24:1
A vinda do Rei da Glória
Salmo de Davi ​Ao SENHOR pertence a terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele habitam.
2 Coríntios 9:7-9
Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama a quem dá com alegria. Deus pode fazer-vos abundar em toda graça, a fim de que, tendo sempre, em tudo, ampla suficiência, superabundeis em toda boa obra, como está escrito: Distribuiu, deu aos pobres, a sua justiça permanece para sempre.


nas religiões, o fiel trabalha pensando em seu sustento;
na fé no Cristo o fiel trabalha pensando em sustentar o próximo, que dele necessita. (Ef 4.28)
Efésios 4:28
Aquele que furtava não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com que acudir ao necessitado.


nas religiões, o sucesso é prova da eficácia de sua fé;
na fé no Cristo a eficácia da fé aparece quando o fiel usa o seu sucesso para salvar o próximo do fracasso. (2Co 8.13-15)
2 Coríntios 8:13-15
Porque não é para que os outros tenham alívio, e vós, sobrecarga; mas para que haja igualdade, suprindo a vossa abundância, no presente, a falta daqueles, de modo que a abundância daqueles venha a suprir a vossa falta, e, assim, haja igualdade, como está escrito: O que muito colheu não teve demais; e o que pouco, não teve falta.


nas religiões, o fiel obedece regras para agradar o seu deus;
na fé no Cristo, para agradar a Deus, o fiel crê em Deus. (Hb 11.6)
Hebreus 11:6
De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam.


nas religiões, o fiel se esforça para honrar o seu deus;
na fé no Cristo o fiel é transformado em alguém parecido com o Deus. (2Co 3.18)
2 Coríntios 3:18
E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito.


nas religiões, o fiel pratica boas obras para demonstrar o seu mérito;
na fé no Cristo não há mérito nenhum em fazer boas obras, é só uma questão de nova vida. (Ef 2.10)
Efésios 2:10
Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.


nas religiões, o fiel busca bençãos para si;
na fé no Cristo o fiel é chamado para ser uma benção. (Gn 12.1,2)
Gênesis 12:1-3
Deus chama Abrão e lhe faz promessas
​Ora, disse o SENHOR a Abrão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei; de ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu uma bênção! Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra.


nas religiões, o fiel tem desejos;
na fé no Cristo o fiel tem missão. (Jo 15.16)
João 15:16
Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda.


nas religiões, o fiel pede para poder ter;
na fé no Cristo o fiel pede para poder repartir. (Mt 6.11)
Mateus 6:11
o pão nosso de cada dia dá-nos hoje;


nas religiões, o fiel dá testemunho da graça alcançada;
na fé no Cristo o fiel frutifica o fruto do Espírito de Deus e manifesta a graça divina a todos. (Gl 5.22; Ef 4.29)
Gálatas 5:22, 23
Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade,
mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei.
Efésios 4:29
Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, e sim unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem.


nas religiões, há muitos fiéis que querem salvar o planeta,
na fé no Cristo o fiel sabe que está unido ao planeta, pois Jesus morreu, também, pelo universo, para criá-lo, mantê-lo é resgatá-lo. (1Pe 1.19,20)
1 Pedro 1:19-20
mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo, conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós


nas religiões deus é uma entidade única e egocêntrica;
na fé no Cristo Deus é a Comunidade Única e Teocêntrica. (Gl 4.6)
Gálatas 4:6
E, porque vós sois filhos, enviou Deus ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai!
Mt 28.19
Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando- os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; 



domingo, 27 de setembro de 2015

Os dons só cessam com a morte!


Ariovaldo Ramos

“O amor jamais acaba; mas, havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, passará; porque, em parte, conhecemos e, em parte, profetizamos. Quando, porém, vier o que é perfeito, então, o que é em parte será aniquilado.” 1Co 13.8-10

Paulo nos diz que um dia não precisaremos mais de profecias, nem de dons, nem de conhecimento. Porque estas possibilidades compõem o que ele chama de “o que é em parte”. Na chegada do perfeito o que é em parte será aniquilado.

Por que em parte conhecemos? Segundo João Calvino “a intenção de Paulo é mostrar que o fato de recebermos conhecimento e profecia é precisamente uma prova de que somos imperfeitos. Portanto ‘em parte’ significa que não fomos ainda aperfeiçoados. Conhecimento e profecia, portanto, terão lugar em nossas vidas enquanto a imperfeição fizer parte de nossa existência terrena, pois eles nos assessoram até que plenitude nos atinja.” (Comentário à Sagrada Escritura, Exposição de 1Coríntios, 1ª Edição em Português, São Paulo, 1996, Edições Paracletos, pg. 402)

Os dons durarão até chegar o que é perfeito. Quando chegará o que é perfeito? O que Paulo está dizendo? Segundo João Calvino  “ele está dizendo: ‘Quando a perfeição chegar, tudo o quanto nos auxiliou em nossas imperfeições será abolido.’ Mas, quando tal perfeição virá? Em verdade, ela começa com a morte, quando nos despirmos das inúmeras fraquezas juntamente com o corpo; porém, ela não será plenamente estabelecida até que chegue o dia do juízo final.” (op. cit., pg. 403)

Então, enquanto vivermos precisaremos dos dons, do conhecimento e da profecia. É claro que “o benefício oriundo dos dons só é eficaz enquanto estivermos nos movendo para o alvo” (op. cit. Pg 402), isto é, os dons são os acessórios necessários para vivermos conforme a nossa vocação. “Paulo poderia ter posto nestes termos: ‘Quando tivermos alcançado o ponto de chegada, então as coisas que nos ajudaram no percurso deixarão de existir.’” (op. cit. Pg. 403) Só com a morte a gente deixa de precisar dos dons, do conhecimento e da profecia, não que a morte seja o que é perfeito, o que é perfeito vem com o juízo final: a nossa ressurreição!


Cessacionismo é liberalismo teológico 

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Determinismo 2

Ariovaldo Ramos

Quer dizer que o seu deus sabe o futuro porque determinou tudo?  
Exato, porque não teria outra forma de o saber se não o determinasse.

Então, o seu deus é soberano mas não é onisciente. 
Para nós, soberania e onisciência são a mesma coisa.

Mas, não o são, porque onisciência é o atributo divino que lhe permite saber tudo sobre todos e sobre tudo, em todo e qualquer tempo, sem precisar determinar nada. 
Bem, o nosso deus sabe tudo por ter tudo determinado.

Então, soberania, para vocês, não é a capacidade divina de intervir quando quiser, como quiser, e em que história quiser para o cumprimento do seu propósito? 
Não, para nós soberania é a capacidade divina de determinar tudo o que quiser como o quiser; quem tudo determina não precisa intervir em nada, nem por nada.

O seu deus é o único protagonista no Universo?
Sim, tudo acontece porque e como ele quer que aconteça.

O seu deus, portanto, ou determina tudo, ou não sabe nada?
Não é exatamente, não sabe nada, é que não haveria o que saber.

Eternidade deixa de ser ausência de tempo, para ser um tempo sem fim, portanto, apenas mais uma medida de tempo, também sob determinação?
Dito dessa forma… uma certeza há, tudo será conforme determinado.

Compreendo, mas, isso reduz a eternidade à imortalidade.
Mas, é isso que define a eternidade!

Veja bem, se eternidade  é um tempo que não tem fim, então o seu deus teve um começo, porque, tempo pode até não ter fim, mas, tem de ter começo.
Nunca, nosso deus sempre existiu, nosso deus criou o tempo!

Se o seu deus criou o tempo, ele, também se tornou prisioneiro do tempo, porque nunca sairá dele, ainda que seja quem ao tempo determine.
Não é assim, as criaturas é que nunca sairão do tempo.

O seu deus, consequentemente, não vai julgar nada nem ninguém.
Claro que vai… julgará os vivos e os mortos e todos os que tiverem responsabilidade moral.

Estranho… o seu deus é o único protagonista, determina tudo, mas, julga a todos… como ele lhes imputará culpa ou inocência?
Embora tudo seja determinado, não há na divindade nenhuma culpa, toda culpa está na criatura.



Por que o seu deus determinou dessa maneira, isto é, dando lugar à maldade? 
Imagino que foi porque ele quis, ou porque não havia outro jeito.

Bem, você tem de decidir isso, porque se ele fez assim porque quis, ou ele é mal, ou, para ele, não há diferença entre bem e o mal; o que, se me permite dizer, é muito mal. 
Não sei, isso é um mistério!

Tem outra situação, se ele fez dessa maneira porque não tinha outro jeito, então, além de mal, ele, também, não é todo-poderoso. 
Como assim?

Perceba, se ele fez assim, determinando tudo desse jeito, porque não havia outra possibilidade, então, ele o fez sob algum constrangimento, logo, tem alguém ou algo acima dele que o constrangeu. 
Não acredito que tenha sido assim, a divindade faz por vontade!

Pense, se o seu deus está sob algum tipo de constrangimento, ele está, em certa medida, com isenção moral, mas, você precisa saber quem está sobre ele, quem fez dele um deus coadjuvante.
Não há nada nem ninguém acima dele.

Vejamos, seu deus, embora soberano não é onisciente, pois só sabe o que determina, e isso, por definição, não é saber, uma vez que não há outro protagonista;  ou não é onipotente ou é mal, porque determinou que tudo passaria pela maldade; deflagrou o tempo, mas se tornou prisioneiro, porque precisa do tempo para fazer e para manter o que fez, e sua eternidade é mera imortalidade… o seu deus é um ídolo.
Isso é blasfêmia!

Pois é, isso é exatamente o que eu penso… Isso é blasfêmia!


terça-feira, 8 de setembro de 2015

Brilhando na Sociedade



Ariovaldo Ramos

Fazer missão e, principalmente, urbana é, em primeiro lugar, mostrar Deus para a sociedade, para, então, chamar a sociedade para Deus.

Lucas 9.10-17, descreve Cristo em missão, mostrando Deus aos homens.

“Ao regressarem, os apóstolos relataram a Jesus tudo o que tinham feito.  E, levando-os consigo, retirou-se à parte para uma cidade chamada Betsaida.
Mas as multidões, ao saberem, seguiram-no.  Acolhendo-as, falava-lhes a respeito do reino de Deus e socorria os que tinham necessidade de cura.
Mas o dia começava a declinar.  Então, se aproximaram os doze e lhe disseram: ‘Despede a multidão, para que, indo às aldeias e campos circunvizinhos, se hospedem e achem alimento; pois estamos aqui em lugar deserto’.  Ele, porém, lhes disse: ‘Dai-lhes vós mesmos de comer’.  Responderam eles: ‘Não temos mais que cinco pães e dois peixes, salvo se nós mesmos formos comprar comida para todo este povo’.
Porque estavam ali cerca de cinco mil homens. Então, disse aos seus discípulos: ‘Fazei-os sentar-se em grupos de cinqüenta’.
Eles atenderam, acomodando a todos.
E, tomando os cinco pães e os dois peixes, erguendo os olhos para o céu, os abençoou, partiu e deu aos discípulos para que os distribuíssem entre o povo. Todos comeram e se fartaram; e dos pedaços que ainda sobejaram foram recolhidos doze cestos.

Jesus Cristo viu-se como resposta de Deus à ignorância espiritual do povo: (falava-lhes a respeito do reino de Deus.)

Viu-se, também, como resposta de Deus à enfermidade do povo: (socorria os que tinham necessidade de cura).

Viu-se como resposta de Deus à fome do povo: (E, tomando os cinco pães e os dois peixes, erguendo os olhos para o céu, os abençoou, partiu e deu aos discípulos para que os distribuíssem entre o povo.  Todos comeram e se fartaram.)

Viu-se como resposta à desorganização e desorientação do povo: (Fazei-os sentar-se em grupos de cinqüenta).

A igreja, a exemplo de Jesus Cristo, deve ver-se como resposta de Deus para os clamores da sociedade.

Para atender as demandas do povo e mostrar-lhes o verdadeiro caráter do Pai Cristo usou:

De compaixão: (acolhendo-as).  Cristo levou Seus discípulos para descansar, encontrou multidões esperando-o, acolheu-as, isto é, assumiu-se como resposta de Deus para a ansiedade do povo.  A igreja, de igual modo, para mostrar o amor do Pai, deve acolher a humanidade, compreendendo a sua condição de carente da glória de Deus (Rm 3.23). Trata-se de uma missão de salvação, não de juízo. Além disso, tem de lembrar-se que, à exemplo da multidão, em relação ao desejo de Jesus, de descansar com os seus discípulos, a cidade tem os seus próprios horários, se a igreja quiser causar impacto na cidade tem de se adaptar aos seus horários e não esperar que o contrário aconteça.  

            A Palavra de Deus: (falava-lhes a respeito do reino de Deus.)  Carente da glória de Deus, a humanidade tem sido desviada pelos mais diversos enganos. A humanidade faz apenas três grandes perguntas: 1- Quem somos (que envolve as questões: de onde viemos, por que estamos aqui e para onde vamos)? 2- O que fazemos com a riqueza que o planeta e a vida nos proporciona?  3- como fazemos para viver juntos? Para responder à essas três perguntas fez várias tentativas, por exemplo, para responder à primeira, inventou um sem números de religiões e filosofias, mas continua convivendo com o vazio do coração, com o suicídio e outras angústias existenciais; para responder à segunda questão, já tentamos desde o escambo primitivo até a sociedade econômico-financeira sofisticada dos dias em que vivemos, porém, continuamos a conviver com a fome, a pobreza, a miséria e a indigência; na tentativa de responder à terceira, percorremos o caminho que vem do clã primitivo até as sociedades democráticas mais avançadas como as escandinavas, entretanto, continuamos a conviver com o assassínio, a violência urbana e a guerra. O Reino de Deus, que nos foi revelado em toda a escritura e, notadamente, em Cristo Jesus, de fato responde à essas perguntas: à primeira, o Reino responde: somos de Deus e para Ele devemos viver, e isso só é possível por meio de Jesus Cristo, por ação do Espírito Santo; à segunda   diz: solidariedade: “quem tiver duas túnicas divida com quem não tem, quem tiver comida faça o mesmo” e à terceira responde com o termo fraternidade, ou seja, trate o próximo como irmão. Jesus Cristo ensinou-lhes o caminho de Deus.  A Igreja tem a resposta às perguntas dos homens, logo, tem a responsabilidade de respondê-las, para fazê-los ver o Pai que quer ser encontrado.

O poder do Espírito Santo:  (socorria os que tinham necessidade de cura) Jesus Cristo tinha consciência de que os dons que recebemos são para abençoar os necessitados.  A exemplo dos amigos do paralítico (Marcos 2), a Igreja tem de colocar todos os seus recursos, sejam espirituais ou materiais (tasis como a formação acadêmica ou vital) para que a cura de Deus seja alcançada.  A cura de Deus não contempla apenas o espiritual, pois, Cristo veio “não só a alma do mal salvar, também, o corpo ressuscitar”.  Dessa forma a Igreja mostra o Pai que preocupa-se com o sofrimento humano.

Recursos do próprio povo: (Não temos mais que cinco pães e dois peixes) cedidos por um menino (João 6.9). Jesus deixou claro que o problema não são os recursos, eles existem, independente da quantidade (estão mais próximos do que imaginamos, basta olhar para a própria comunidade).  A questão é se eles estão ou não entregues nas mãos de Cristo para serem repartidos.  Quando a Igreja se dispõe a servir, sua preocupação deve ser a de colocar os recursos de que dispõe nas mãos de Deus; e, dessa forma, mostrar o Pai que distribui os recursos para o bem de todos.

Exemplo: “Fazei-os sentar-se em grupos de cinqüenta.”

Ao dar essa ordem, o Senhor tratou de duas questões: 

Em primeiro lugar, criou caminho para que o pão chegasse a todos.  Sem que as pessoas fossem dispostas dessa maneira, como os discípulos conseguiriam alcançar a todos com o alimento?  Lembre-se, eram cinco mil homens, acrescente mulheres e crianças...é provável que cheguemos à cerca de doze mil pessoas. 

Em segundo lugar, Jesus promoveu uma nova forma de organização do povo: quando ele chegou em Betsaida encontrou uma multidão de pessoas se acotovelando; ao propor essa organização, Jesus estava transformando esse amontoado de pessoas numa reunião de cerca de duzentos e quarenta comunidades, compostas de cinqüenta pessoas cada.  Além do mais levou-as ao status de companheiros, pois, a palavra companheiros significa: “aqueles que compartilham do mesmo pão”.  Essa disposição tinha, em si, um ensino: só em comunidade todas as pessoas podem ser alcançadas e alimentadas. 

A Igreja, não só deve viver em comunidade, como deve ensinar a humanidade a viver assim – é na comunidade que cada sujeito constrói sua identidade – dessa maneira faz-se conhecido o Deus que está em permanente conselho- o Deus Trino.

A Igreja só alcançará tal eficácia indo onde as pessoas estão, onde a história está acontecendo; envolvendo-se. 

Como doze homens conseguem fazer doze mil sentarem-se, a menos que se misturem ao povo e, através do ensino e do exemplo, ministrem o senso comunitário?

A fé que se estriba na gratidão: (Então, Jesus tomou os pães e, tendo dado graças, distribuiu-os entre eles; e também igualmente os peixes, quanto queriam) (João 6.11).

a)  Jesus Cristo tomou o pouco alimento que recebeu e, ao invés de pedir um                  milagre, agradeceu a Deus e, partiu o pão, o que nos ensina algumas verdades: quem sabe agradecer pelo que recebe, ainda que pareça pouco, verá a benção de Deus; Deus está pronto a multiplicar aquilo que a Igreja estiver pronta para repartir.

Jesus Cristo confiava no caráter de Deus, porque fé é isso – crer que Deus existe e é galardoador daqueles que o buscam. (Hb 11.6)  É como se Cristo dissesse:- “Se foi isso o que Deus mandou é porque, com isso, vai dar para fazer uma festa.”

A Igreja precisa demonstrar, pela gratidão, o Deus galardoador dos que o buscam.  E, pelo compartilhamento, o Deus abençoador e solidário.

Com tais práticas a Igreja produz obras que levarão a sociedade a ver e a glorificar a Deus.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

História e Alienação

História e Alienação

Um discurso pastoral da fé para o dia a dia, a partir da concepção da missão integral de Deus usará a interdisciplinariedade como instrumento de análise da realidade, por tratar-se de uma abordagem voltada para a história, para o que nos acontece aqui e agora. Deus, no discurso da fé, a partir da concepção da missão integral de Deus, é visto a partir do manifesto na história. Como ser eterno, a Trindade existe antes e para além da história. Isso, porém, não impede que o Eterno reivindique para si a história, que a assuma e a conduza. É na história que Deus se mostra a nós, porque não podemos transcendê-la nem dela escapar. O que quer que nos aconteça ou nos seja revelado é na história que acontece e é nela que se revela. Nem podemos nos imaginar fora da história! E não só não nos imaginamos fora dela como também não nos conhecemos a não ser como seres históricos, portanto, dependentes.

A manifestação de Deus na história, porém, é libertadora. Quando aparece a Abraão, ele diz: "Sai da casa do teu pai, da tua parentela e vai para a terra que eu te mostrarei. De ti farei uma grande nação, abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem. Em ti serão abençoadas todas as famílias da terra" (Gn 12:1-3)

Esse é o projeto, o propósito. O propósito não é apenas Abrão. O propósito é abençoar “todas as famílias da terra”. Nesse texto, vemos a ação libertadora de Deus. Qual é a benção de que precisam as famílias da terra? Não é outra senão a libertação. É libertação em todos os sentidos. O que acontece com as famílias? Elas encontram-se alienadas. De Deus e de si mesmas e das demais. Quem está alienado de Deus também alienou-se de si mesmo e de todos. Fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Mas a queda provocou uma fratura nessa imagem, distorceu-a, obliterou-a. Com a queda, perdemos a referência do que é ser gente. Deus era nossa referência. Ao nos alienarmos dele, nos alienamos de nós mesmos. Marcados pela consciência de incompletude, de falta de propósito, perdemos o sentido da nossa existência. Isso é o que significa estar alienado. Com estas citações vistas em rede social:

“1 - Não faço exercícios, mas ligo para meus melhores amigos sempre e penso mais do que devia.

 2 - Como muito sal e minha vida, ainda assim, anda tão sem  
  gosto.                       

 3 - Devoro barras e barras de chocolate e ainda não tenho um doce   amor.

4 - Fumo. E a fumaça não traz o gênio da lâmpada.

5 - Tenho muitos sonhos, pedidos, desejos, reparações, reclamações e dúvidas. Estou viva!

6 - Bebo, afinal, o álcool tem que fazer o seu papel.

7 - As vezes tenho inveja, mas espio pela janela, a luz acesa do vizinho e noto que a grama dele não é mais verde que a minha...

8 - Sou pró ativa, dinâmica e trabalho em equipe. Afinal, temos que pagar nosso aluguel.

9- Tenho mais de 30, já plantei uma árvore e escrevi algumas coisas malucas. Quanto a filhos? Talvez eu adote um menino negro quando as coisas melhorarem...

10- Se sou feliz? Moro em São Paulo! Que isso significa? Código de barras!”


Assim como existe uma história da salvação, existe também uma história da alienação.  “Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne. Ora, um e outro, o homem e sua mulher, estavam nus e não se evergonhavam”(Gn 2:24-25). 

“Então, a serpente disse à mulher: é certo que não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal (Gn 3:4-5)”. “Abriram-se, então, os olhos de ambos; e, percebendo que estavam nus, coseram folhas de figueira e fizeram cintas para si. Quando ouviram a voz do Senhor Deus, que andava no jardim pela viração do dia, esconderam-se da presença do SENHOR Deus , o homem e sua mulher, por entre as arvores do jardim.” (Gn 3:7-8). 

“E a Adão disse: Visto que atendeste a voz de tua mulher e comeste da arvore que eu te ordenara não comesses, maldita é a terra por tua causa; em fadigas obterás dela o sustento durante os dias de tua vida (Gn 3:17).

 “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”.(Gn3.15)

Por que estamos alienados? Essa é a grande pergunta. E qual é a intensidade dessa questão? 
Estamos alienados porque nós rompemos com Deus. Houve uma rebelião no universo, nós rompemos com Deus e a ruptura se tornou o nosso modo de vida. Nós fomos cooptados para a rebelião instaurada por um grupo de anjos, nós rompemos com Deus, e a nossa ruptura com Deus inaugurou uma forma de viver. Mais do que uma forma de viver, uma forma de ser. Nós nos tornamos pessoas em estado de ruptura. Estamos em ruptura com o planeta, com Deus, conosco mesmo e com o próximo. Por quê? Porque quebramos a aliança com Deus. Ao quebrarmos a aliança com Deus, nós quebramos a aliança com o universo. 

Por quê quebramos a aliança com Deus? O que nós estávamos buscando ser? Nós estamos buscando ser auto referentes. O adversário nos disse o seguinte : “o dia que vocês comerem do fruto da árvore da morte, do conhecimento do bem e do mal, vocês não vão precisar de Deus para saber a diferença entre o bem e o mal, vocês mesmos decidirão, vocês serão a sua própria referencia”. O problema todo, é que quando nós comemos da árvore da morte, e nos decidimos ser auto referentes, nós entramos em estado de guerra. 

Nós entramos em estado de guerra com Deus, porque agora, o que Deus acha, não interessa, pois nós é que somos auto referentes, nós é quem vamos decidir o que é o bem e o que é o mal, então o que Deus pensa, não interessa. 

Mas nós também entramos em estado de guerra uns com os outros, porque o que eu digo que é bem, você pode dizer que é mal. O que eu digo que é mal, você pode dizer talvez! E quem estabelece essa ordem? Quem decide?

Estamos em estado de guerra, e isso acontece, muitas vezes, dentro da própria família. O que é a crise em muitas famílias, se não o fato de que todos são auto referentes? 

Nós precisávamos disso? Não! Nós sabíamos a diferença entre o bem e o mal. Se alguém fosse nos visitar lá no jardim do Eden e nos perguntasse o que poderíamos fazer ali, responderíamos que poderíamos fazer tudo, menos comer daquela árvore. Nós sabíamos a diferença entre o bem e o mal. Sabíamos a diferença entre o certo e o errado. E mais, o adversário nos disse que se comêssemos da arvore da morte seriamos semelhantes a Deus. Mas semelhantes a Deus, nós já éramos! Então, nós sabíamos, e nós já éramos. A questão era se alguém nos perguntasse “como você sabe o que pode, e o que não pode”? “Deus!” Seria a resposta. Deus é quem nos informa o que devemos, e o que não devemos, Deus é a nossa referência. E o inimigo chega e diz: “Vocês não precisam de Deus”. E nós nos tornamos seres em estado de guerra.

Ao nos tornarmos seres em estado de guerra, perdemos muito. Perdemos a unidade humana. O próximo, virou o outro. Antes de comermos da árvore da morte, homem e mulher estavam unidos. Estavam unidos como uma só carne, como a Trindade é, e estávamos mutuamente expostos. A frase, “estavam nus e não se envergonhavam” significa que o casal não conhecia mediação entre si. Que um se expunha ao outro sem medo. Que tudo entre um e outro era absolutamente claro, não havia o que esconder. Eles se viam como um, porque quando o homem recebe a mulher, ele não diz “ela é o outro”, ele diz, “ela sou eu!” A unidade era perfeita. Estávamos em perfeita unidade entre nós, com Deus e com a criação. 

Perdemos a unidade humana, e o próximo virou o outro, e o outro virou o diferente , e o diferente virou o inimigo. Nós nos perdemos. Nós nos perdemos de nós mesmos, nós nos perdemos do outro, nós nos perdemos de Deus. Nós perdemos a unidade humana. E aquilo que era límpido, ficou absolutamente difuso, estranho e bizarro. 

O homem e a mulher passaram a se esconder um do outro, agora, eles não sabiam mais quem eram. Não sabiam mais o que estavam expondo e a quem estavam se expondo. Eles tinham perdido, inclusive, a sua identidade. Agora eles estavam em uma situação absolutamente complexa, pois não só perderam a comunhão, mas perderam a identidade que nascia justamente daquela comunhão perfeita. E entraram em um estado de disfuncionalidade. Entramos em crise de identidade, porque nós simplesmente nos perdemos da nossa sexualidade. Agora o masculino não sabia mais ser masculino nos papéis que teria de desempenhar. Não sabia mais ser masculino quando o papel é pai, irmão, tio, sobrinho, filho, amigo… E o feminino, também, não sabia mais ser feminino nos vários papéis que teria de desempenhar. 

Agora temos um clamor todo contra o abuso. Por quê? Por causa da disfunção! Tem uma disfunção na humanidade, o masculino não sabe mais se portar como masculino nos seus diversos papéis, o feminino não sabe mais se portar como feminino nos seus diversos papéis.  

A disfuncionalidade, é o resultado da ruptura com Deus, com o próximo, com a família  (que, antes, era a extensão natural ao ser humano). Aquela que deveria ser a extensão do masculino se tornou "o outro", o diferente, o estranho, o bizarro, o inimigo, e vice-versa. Ao invés de estarmos expostos, abertos, nos fechamos. Nos fechamos e nos escondemos de Deus, nos escondemos do cônjuge, que deveria ser extensão de nós mesmos, e, no final das contas, nos escondemos de nós, porque perdemos a nossa identidade. Entramos em um estado de disfuncionalidade. 

Nesse estado de disfuncionalidade, nós passamos a ter medo de Deus, e Deus, passou de Criador a juiz. Deus, amigo, querido, criador, que informava tudo o que nós precisávamos saber, que cuidava de nós, que nos deu autoridade sobre o planeta, que nos deu um modelo de governo. Deus, que se encontrava conosco todas as tardes, que segredava ao nosso coração os seus sonhos, os projetos que Ele tinha e os que nós podíamos ter, e nos estimulava a ter nossos próprios projetos... Essa comunhão desapareceu. Deus se tornou o nosso juiz, não porque Ele tenha se tornado, mas nós passamos a vê-lo assim. Nasceu na humanidade uma desconfiança em relação a Deus, uma percepção de que Deus está nos condenando, que não está contente conosco. 

Por isso, estamos em estado de alienação. Nós perdemos muito, inclusive, passamos a ter medo do outro. Quando o homem foi checado por Deus, ele imediatamente descobriu um culpado, que não ele: “foi a mulher!” Ontem ele disse “ela sou eu”, hoje ele está dizendo, “não tenho nada a ver com ela”. Passamos a ter medo do outro, a usar o outro como álibi, como inimigo, como adversário, como culpado. É um nível de ruptura profundo.

Qual a implicação? Implica que estamos todos em estado de solidão, em maior ou em menor grau. Pois não dá para compartilhar, para conviver, para confiar, para se expor, é uma crise profunda de comunidade. Estamos alienados e precisamos voltar. Precisamos voltar para Deus, para nós mesmos, para o próximo, para a unidade, para a família, para o propósito da nossa existência. 

Estamos em estado de alienação porque rompemos com a Terra. Nos tornamos de jardineiros, predadores. Nós éramos jardineiros, o Senhor nos deu autoridade sobre o planeta, nos deu a possibilidade do governo, entregou tudo nas nossas mãos, nos deu um modelo. Porque Deus criou um jardim para nós, e o jardim é o modelo perfeito, pois é um modelo comunitário. A beleza do jardim é fruto da harmonia, não é a mera soma dos componentes do jardim. A beleza do jardim é aquele encontro, aquela harmonia, aquela cumplicidade. Aquilo é o que torna o jardim belo ,na verdade ,é o que torna Jardim. O jardim é absolutamente solidário,a chuva, o sol , os nutrientes, precisam ir para todos. Se um dos componentes do jardim murcha, o jardim inteiro murcha também. A beleza do jardim depende da viçosidade de todos. O jardim é comunitário, solidário e sacrificial, pois todos tem de passar por poda, pois sem poda, não haverá jardim.Precisa ter uma forma identificável, perceptível da qual todos fazem parte e na qual todos brilham. Brilham em comunidade, em comunhão, e por comunhão. 

Estamos em estado de alienação: era para sermos jardineiros e, ao mesmo tempo, parte do jardim. Nos tornamos os predadores da Terra. Se a Criação pudesse fazer uma oração ao Pai, ela diria “Erradique  os homens da face da Terra, extinga a raça humana, pois esses seres são egoístas, estão nos devorando, se o Senhor não extingui-los um dia não haverá terra para ninguém, e o Senhor não verá mais o que o Senhor criou. Eles vão conseguir destruir.” 

Estamos alienados porque nós rompemos com a vida. Antes, o Senhor garantia-nos a não mortalidade. Nós não iríamos morrer, o corpo nunca iria se separar do espirito, e o espirito nunca iria se separar do corpo. É muito interessante porque, entre os nossos debates, muitas vezes aparece a questão do espirito, corpo e alma, mas sabe por quê isso? Porque a gente morre. Pois se nós não morrêssemos, nós nunca nos imaginaríamos sem espirito. A gente pergunta o que vai acontecer, porque a gente sabe o que acontece. A gente morre, porque nós rompemos com a vida. Quando Deus olha para nós e vê o potencial maligno e tudo o que isso significa, ele diz: ‘vocês têm que morrer’.


Ao nos rebelarmos contra Deus, renunciamos à sua tutela e comprometemos de forma irremediável nossa finalidade como seres humanos. Numa palavra, perdemos nosso telos. A perda do senso de finalidade nos obriga a construir um substituto para o que se perdeu. A história da raça humana pode ser vista como uma odisséia em busca de um novo telos. Quem somos? Por que estamos aqui? Para onde vamos? Essas são, em última instância, as questões que nos remetem ao problema fundamental do sentido da nossa existência. A queda vetou-nos o caminho para chegarmos às respostas. Sem Deus, estamos condenados à ignorância e ao desespero. Com a capacidade de responder a essas perguntas, perdemos também o sentido de finalidade. Perdemos nossa teleologia, nosso senso de propósito.

As alternativas são: ou renunciar, como os existencialistas o fizeram, a qualquer esperança de encontrar um propósito para a vida, ou procurá-lo ora no prazer (hedonistas), ora na felicitas (idealistas românticos), ora no autodomínio (estóicos), e assim por diante. Na história do pensamento ocidental, cada movimento ou escola propôs um sentido para a nossa existência. 

Embora honestas, as respostas filosóficas à questão “por que existimos?” nunca lograram apagar por completo o anseio humano por uma verdade unívoca, cabal e insofismável. O senso de finalidade é o que nos permite dar o próximo passo, porque precisamos saber em que direção iremos, onde chegaremos, o que, afinal, nos espera do outro lado da ponte. A menos que tenhamos um telos pelo qual nos guiarmos, tudo que fizermos, sonharmos ou construirmos permanecerá incompleto, imperfeito, vazio de sentido.

Voltemos para o nosso ponto de partida: o estado de alienação do ser humano. Estar alienado é não ter propósito, é estar à deriva, sem rumo e sem esperança. Deus entra na história para nos libertar desse estado de alienação, para nos devolver o senso de finalidade que perdemos com a queda. É como libertador que Deus se revela a Abraão. Ele diz: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra.” Quando isso vai acontecer? Onde? Como? Na história. Ou melhor, durante essa e a outra fase da história. A lógica aqui é que só seremos afetados quanto a outra fase da história, se o formos afetados, também, durante essa fase. Uma coisa condiciona a outra. 

Quando os cristãos pregam o Evangelho, eles se amparam na certeza de que a história tem uma finalidade: Deus hipotecou sua palavra de que, independente de tudo que possa acontecer, há, para a existência, propósito. Há um folheto, muito usado para evangelizar, que mostra as “razões” por que as pessoas não têm tempo para Deus: jovem demais, ocupado demais, velho demais, e assim por diante. No último item da lista, há um “tarde de mais” acompanhado da figura de um túmulo. Isso ilustra, ainda que de modo simples, como a história nos afeta.

Nossa crença é a de que nada acontece fora da história e tudo que nela acontece nos afeta. Nosso destino é, portanto, o destino de Deus para a história. Resta-nos indagar qual é o projeto de Deus. Deus entra na história para nos libertar, porque a libertação só pode acontecer na história e não em uma esfera supra-natural, etérea, desconectada do aqui e agora. Deus se manifesta como libertador na história. Ele vem para nos libertar da alienação, dele e de nós mesmos, o que acaba por ser uma e a mesma coisa, porque Deus é a fonte e a razão da nossa existência. Perdemos o senso de finalidade e Deus vem nos devolvê-lo. Um discurso da fé a partir da concepção da missão integral de Deus ligar-se-á, necessariamente, à história. Todo discurso de fé que se desconecta da história é irrelevante para o ser humano.

É preciso repetir que um discurso de fé sem perspectiva histórica é irrelevante. Ela não muda a forma como as pessoas vivem. Não muda o modo como as pessoas se relacionam umas com as outras. Um discurso da fé a partir da concepção  da missão integral de Deus, por sua vez, reconhecerá e proclamará que o Deus libertador é o Deus que entra na história e convoca os homens param transformá-la. Nossa libertação começa aqui e agora,  e encontra seu desfecho na nova Jerusalém. Mesmo aqui a história não é negada. Antes, é nesse evento que ela encontra sua "raison d’être". 

No discurso da fé a partir da concepção da missão integral de Deus, se considera que uma nova ordem foi invocada. Os cristãos anunciam um novo rei, Jesus Cristo, e um novo reino, o dos céus. Há nessa crença algo de revolucionário, contestador. Ela reclama uma nova ordem. E se há uma nova ordem, há um novo propósito, uma nova maneira de viver, de se conduzir, de pensar e de agir.

Toda ética se sustenta a partir de um fim, de um telos. Nesse sentido, toda ética pressupõe uma teleologia. Se não há finalidade, não há ética, porque a ética fala do caráter, da natureza das coisas. E, em última análise, a natureza das coisas é decidida pela finalidade delas. A ética é, por assim dizer, uma rubrica da teleologia. Neste caso, o fim impõe os meios. Essa é, então, a idéia que está implícita na visão do Deus libertador. Deus vem para “desalienar” o ser humano, resgatar sua teleologia, e, portanto, sua ética, sua moral, seu comportamento. A libertação que Deus traz para o ser humano muda sua história e sua ética. É um novo começo, uma nova vida, um novo propósito. A revelação de Deus é conseqüente com o seu projeto de libertação. Toda revelação é, portanto, libertadora.  Se Deus é libertador, sua revelação também o é. O que queremos dizer com isso é que Deus não dá informação de graça. Ele não faz sua autoproclamação pura e simplesmente. Sua revelação é, portanto, repetimos, libertadora.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Determinismo



Ariovaldo Ramos



Por que você vai me matar? Porque é a vontade de deus!

Como você sabe que é a vontade de deus? Porque está escrito que é para matar os infiéis!

E por que você acha que eu sou infiel? Porque você não adora deus como está no livro! 

Mas, no seu livro, não está escrito que tudo o que acontece é segundo a vontade de deus? Sim, tudo o que acontece é de acordo com a vontade de deus, segundo os seus desejos.

Então, nesse caso, eu sou infiel porque seu deus quis que eu o fosse. Exato, você é infiel porque meu deus quis assim.

Ora, se eu sou o que o seu deus queria que eu fosse, por que é que você vai me matar? Porque você não quer mudar e passar a servir meu deus.

Eu não consigo mudar, e se eu estou certo ao interpretar o seu livro, eu não consigo mudar porque o seu deus não quer que eu mude! Correto, tudo acontece segundo a vontade de meu deus!

Então, você vai me matar porque eu sou exatamente do jeito que o seu deus quer? Claro! Meu deus fez você assim para que eu o matasse!

Quer dizer que o seu deus fez uns para matar e outros para serem mortos? É desse jeito, eu fui feito para matar você, e você foi feito para morrer nas minhas mãos.

Você não pode fazer nada em relação a isso? Não, eu estou determinado por deus.

Isso é verdade em relação a qualquer ato humano, mesmo o mais hediondo? Esta é a verdade!

Quer dizer que não passamos de marionetes na mão de seu deus? Mais ou menos, mas, com muita sabedoria!

Antes que você atire, só mais uma questão:  Você tem certeza de que isso não é apenas uma desculpa para que você faça o que quiser sem se sentir culpado? Me recuso a comentar isso… Bang!

Ninguém, ao ser tentado, diga:Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. Tg 1.13
*

Determinismo é, na prática, uma falácia moral, pois, permite a qualquer um fazer o que quiser e colocar todo peso da culpa nas costas de um deus. É a desculpa perfeita para todo tipo de opressão, para todo tipo de segregação social.


No determinismo teológico, deus é mal. No determinismo histórico o sonho de ser livre é um pesadelo, pois, o que é inexoravelmente determinado não pode gerar liberdade.