Ariovaldo Ramos
Fazer missão e, principalmente, urbana é, em primeiro lugar, mostrar Deus para a sociedade, para, então, chamar a sociedade para Deus.
Lucas 9.10-17, descreve Cristo em missão, mostrando Deus aos homens.
“Ao regressarem, os apóstolos relataram a Jesus tudo o que tinham feito. E, levando-os consigo, retirou-se à parte para uma cidade chamada Betsaida.
Mas as multidões, ao saberem, seguiram-no. Acolhendo-as, falava-lhes a respeito do reino de Deus e socorria os que tinham necessidade de cura.
Mas o dia começava a declinar. Então, se aproximaram os doze e lhe disseram: ‘Despede a multidão, para que, indo às aldeias e campos circunvizinhos, se hospedem e achem alimento; pois estamos aqui em lugar deserto’. Ele, porém, lhes disse: ‘Dai-lhes vós mesmos de comer’. Responderam eles: ‘Não temos mais que cinco pães e dois peixes, salvo se nós mesmos formos comprar comida para todo este povo’.
Porque estavam ali cerca de cinco mil homens. Então, disse aos seus discípulos: ‘Fazei-os sentar-se em grupos de cinqüenta’.
Eles atenderam, acomodando a todos.
E, tomando os cinco pães e os dois peixes, erguendo os olhos para o céu, os abençoou, partiu e deu aos discípulos para que os distribuíssem entre o povo. Todos comeram e se fartaram; e dos pedaços que ainda sobejaram foram recolhidos doze cestos.
Jesus Cristo viu-se como resposta de Deus à ignorância espiritual do povo: (falava-lhes a respeito do reino de Deus.)
Viu-se, também, como resposta de Deus à enfermidade do povo: (socorria os que tinham necessidade de cura).
Viu-se como resposta de Deus à fome do povo: (E, tomando os cinco pães e os dois peixes, erguendo os olhos para o céu, os abençoou, partiu e deu aos discípulos para que os distribuíssem entre o povo. Todos comeram e se fartaram.)
Viu-se como resposta à desorganização e desorientação do povo: (Fazei-os sentar-se em grupos de cinqüenta).
A igreja, a exemplo de Jesus Cristo, deve ver-se como resposta de Deus para os clamores da sociedade.
Para atender as demandas do povo e mostrar-lhes o verdadeiro caráter do Pai Cristo usou:
De compaixão: (acolhendo-as). Cristo levou Seus discípulos para descansar, encontrou multidões esperando-o, acolheu-as, isto é, assumiu-se como resposta de Deus para a ansiedade do povo. A igreja, de igual modo, para mostrar o amor do Pai, deve acolher a humanidade, compreendendo a sua condição de carente da glória de Deus (Rm 3.23). Trata-se de uma missão de salvação, não de juízo. Além disso, tem de lembrar-se que, à exemplo da multidão, em relação ao desejo de Jesus, de descansar com os seus discípulos, a cidade tem os seus próprios horários, se a igreja quiser causar impacto na cidade tem de se adaptar aos seus horários e não esperar que o contrário aconteça.
A Palavra de Deus: (falava-lhes a respeito do reino de Deus.) Carente da glória de Deus, a humanidade tem sido desviada pelos mais diversos enganos. A humanidade faz apenas três grandes perguntas: 1- Quem somos (que envolve as questões: de onde viemos, por que estamos aqui e para onde vamos)? 2- O que fazemos com a riqueza que o planeta e a vida nos proporciona? 3- como fazemos para viver juntos? Para responder à essas três perguntas fez várias tentativas, por exemplo, para responder à primeira, inventou um sem números de religiões e filosofias, mas continua convivendo com o vazio do coração, com o suicídio e outras angústias existenciais; para responder à segunda questão, já tentamos desde o escambo primitivo até a sociedade econômico-financeira sofisticada dos dias em que vivemos, porém, continuamos a conviver com a fome, a pobreza, a miséria e a indigência; na tentativa de responder à terceira, percorremos o caminho que vem do clã primitivo até as sociedades democráticas mais avançadas como as escandinavas, entretanto, continuamos a conviver com o assassínio, a violência urbana e a guerra. O Reino de Deus, que nos foi revelado em toda a escritura e, notadamente, em Cristo Jesus, de fato responde à essas perguntas: à primeira, o Reino responde: somos de Deus e para Ele devemos viver, e isso só é possível por meio de Jesus Cristo, por ação do Espírito Santo; à segunda diz: solidariedade: “quem tiver duas túnicas divida com quem não tem, quem tiver comida faça o mesmo” e à terceira responde com o termo fraternidade, ou seja, trate o próximo como irmão. Jesus Cristo ensinou-lhes o caminho de Deus. A Igreja tem a resposta às perguntas dos homens, logo, tem a responsabilidade de respondê-las, para fazê-los ver o Pai que quer ser encontrado.
O poder do Espírito Santo: (socorria os que tinham necessidade de cura) Jesus Cristo tinha consciência de que os dons que recebemos são para abençoar os necessitados. A exemplo dos amigos do paralítico (Marcos 2), a Igreja tem de colocar todos os seus recursos, sejam espirituais ou materiais (tasis como a formação acadêmica ou vital) para que a cura de Deus seja alcançada. A cura de Deus não contempla apenas o espiritual, pois, Cristo veio “não só a alma do mal salvar, também, o corpo ressuscitar”. Dessa forma a Igreja mostra o Pai que preocupa-se com o sofrimento humano.
Recursos do próprio povo: (Não temos mais que cinco pães e dois peixes) cedidos por um menino (João 6.9). Jesus deixou claro que o problema não são os recursos, eles existem, independente da quantidade (estão mais próximos do que imaginamos, basta olhar para a própria comunidade). A questão é se eles estão ou não entregues nas mãos de Cristo para serem repartidos. Quando a Igreja se dispõe a servir, sua preocupação deve ser a de colocar os recursos de que dispõe nas mãos de Deus; e, dessa forma, mostrar o Pai que distribui os recursos para o bem de todos.
Exemplo: “Fazei-os sentar-se em grupos de cinqüenta.”
Ao dar essa ordem, o Senhor tratou de duas questões:
Em primeiro lugar, criou caminho para que o pão chegasse a todos. Sem que as pessoas fossem dispostas dessa maneira, como os discípulos conseguiriam alcançar a todos com o alimento? Lembre-se, eram cinco mil homens, acrescente mulheres e crianças...é provável que cheguemos à cerca de doze mil pessoas.
Em segundo lugar, Jesus promoveu uma nova forma de organização do povo: quando ele chegou em Betsaida encontrou uma multidão de pessoas se acotovelando; ao propor essa organização, Jesus estava transformando esse amontoado de pessoas numa reunião de cerca de duzentos e quarenta comunidades, compostas de cinqüenta pessoas cada. Além do mais levou-as ao status de companheiros, pois, a palavra companheiros significa: “aqueles que compartilham do mesmo pão”. Essa disposição tinha, em si, um ensino: só em comunidade todas as pessoas podem ser alcançadas e alimentadas.
A Igreja, não só deve viver em comunidade, como deve ensinar a humanidade a viver assim – é na comunidade que cada sujeito constrói sua identidade – dessa maneira faz-se conhecido o Deus que está em permanente conselho- o Deus Trino.
A Igreja só alcançará tal eficácia indo onde as pessoas estão, onde a história está acontecendo; envolvendo-se.
Como doze homens conseguem fazer doze mil sentarem-se, a menos que se misturem ao povo e, através do ensino e do exemplo, ministrem o senso comunitário?
A fé que se estriba na gratidão: (Então, Jesus tomou os pães e, tendo dado graças, distribuiu-os entre eles; e também igualmente os peixes, quanto queriam) (João 6.11).
a) Jesus Cristo tomou o pouco alimento que recebeu e, ao invés de pedir um milagre, agradeceu a Deus e, partiu o pão, o que nos ensina algumas verdades: quem sabe agradecer pelo que recebe, ainda que pareça pouco, verá a benção de Deus; Deus está pronto a multiplicar aquilo que a Igreja estiver pronta para repartir.
Jesus Cristo confiava no caráter de Deus, porque fé é isso – crer que Deus existe e é galardoador daqueles que o buscam. (Hb 11.6) É como se Cristo dissesse:- “Se foi isso o que Deus mandou é porque, com isso, vai dar para fazer uma festa.”
A Igreja precisa demonstrar, pela gratidão, o Deus galardoador dos que o buscam. E, pelo compartilhamento, o Deus abençoador e solidário.
Com tais práticas a Igreja produz obras que levarão a sociedade a ver e a glorificar a Deus.